“Voto crítico”, pelo que vi nas eleições 2014, consiste em uma declaração de voto nas mídias sociais após um longo texto com dezenas de considerações, preâmbulos e justificativas.

Bem, antes de iniciar minhas críticas, começo pela declaração de voto, caso isso interesse alguém ou não tenha ficado claro em minhas manifestações na rede. Voto em Dilma Rousseff no 2º turno.

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Voto em Dilma porque, apesar de serem praticamente os mesmos financiadores das duas campanhas eleitorais, reconheço que existe sim uma diferença grande entre dois projetos políticos para o país. O projeto de Aécio Neves, claramente conservador e neoliberal e o projeto que Dilma representa, de um partido atualmente mais de centro do que esquerda, cujo preço pelo tal “governo de coalizão” vamos pagar por muito tempo ainda, mas que foi responsável por políticas sociais que mudaram a vida de milhões de brasileiros para melhor.

O governo do PT errou em inúmeros passos e aproximou-se de setores reacionários da sociedade. Passos errados, não só por distanciar o Governo Federal das causas progressistas do país, mas porque foram simplesmente equivocados, já que tais setores são, antes de tudo, mercenários que podem mudar de posição facilmente conforme as marés do poder.

Alterância de poder não é tirar o PT do lugar. É tirar o que resta do ranço da ditadura, ruralistas e partidos de aluguel do Congresso. Alternância de poder não é tirar o PT e colocar o PSDB na presidência do país. É tirar o PMDB da eminência parda de Brasília.

A alternância de um “poder” de um pouco mais que uma década, após séculos de saques, violência e segregação, só pode convencer uma geração que não estudou nada. Nisso o PT também errou. Se a Educação de base fosse valorizada, se o setor de comunicações fosse regulado e o financiamento de campanha alterado, estaríamos falando de “onda de conservadorismo” no país?

Mas o que importa agora, é que mesmo com tantos erros, nas horas finais do pega-pra-capar eleitoral, quem nunca deixou de lutar por um país melhor, se manifesta com mais força. As últimas semanas destas Eleições foram marcadas pelo acirramento de posições e confrontos de ideias (e ofensas) nas redes e nas ruas. Tivemos um festival criativo de memes políticos em nossas timelines. Alguns engraçados, outros revoltantes.

Também presenciamos adolescentes e velhinhas nas filas de supermercado discutindo política. Assim como constatamos, novamente, o aumento do voto nulo, causado tanto pelo desinteresse quanto pela desilusão com as candidaturas apresentadas.

O que se pode considerar inicialmente destas duas informações: A Reforma Política é mais do que um desejo popular, é uma necessidade.

O presidencialismo é falho por natureza mas, enquanto construímos e vislumbramos outros sistemas sociais e econômicos mais justos, precisamos trabalhar com o que temos mais próximo de uma república de verdade.

Espero que todos aqueles que, mesmo sendo deixados de lado nos últimos anos da gestão do PT, continuam se opondo ferrenhamente ao que o projeto do PSDB representa, sejam lembrados e ocupem um lugar merecido na agenda política nacional.

Entendo perfeitamente a motivação e a desmotivação de quem votou nulo. Eu mesmo anulei muitas vezes pela certeza de que nenhuma opção me contemplava. O que não é o caso agora.

Além de não me representar em nenhum sentido, Aécio Neves censurou tuiteiros durante a sua campanha, é contra a regulamentação da comunicação no país e é contra o direito ao aborto, só para citar algumas causas ligadas à áreas em que atuo, como a Comunicação e o Estado Laico.

Quando comparo o histórico e as propostas de Aécio para as políticas públicas para a cultura, com o histórico e propostas de Dilma, a diferença entre os dois candidatos fica ainda mais nítida.

As propostas e declarações de Aécio Neves sobre a Cultura se resumem em “menos Estado e mais mercado”. Quem trabalha com formação de público, cultura tradicional e experimentação estética sabe muito bem o que isso significa: um completo desmantelamento de ações e programas bem sucedidos desde a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Ministério este, que resumia-se à distribuição de dinheiro pela Lei Rouanet na era FHC. Praticamente não existia MinC antes do PT assumir o Governo Federal.

Nos últimos 12 anos, artistas e produtores culturais foram testemunhas e participantes de um MinC que valorizou a Diversidade Cultural, Cultura Digital, Cultura Tradicional, flexibilização dos Direitos Autorais e uma série de ações inovadoras para o setor. Além de construir em várias Conferências Nacionais de Cultura (e outros mecanismos de participação social) um Sistema Nacional de Cultura.

O candidato Aécio Neves, em vários debates televisivos, usou a expressão “retrovisor da história” para criticar Dilma, quando esta relembrou episódios infelizes de quando o país foi governado pelo partido do Tucano.

Mas a defesa de Aécio é bem compreensível. É olhando pelo retrovisor que vemos um candidato que, quando foi governador de Minas Gerais, promoveu um aumento da influêncis do setor privado nos recursos públicos via leis de renúncia fiscal.

Aécio Neves não só tem a menor noção da realidade cultural brasileira, como também deve ser muito mal assessorado. Como um candidato a presidência da república responde que “para ampliar o número de salas de exibição no Brasil é preciso aumentar a produção nacional”?

Dilma, além de contar com o apoio muito mais representativo da categoria, é uma garantia maior de que ações e programas importantes como o programa Cultura Viva, Comunicação para a Diversidade e, principalmente, o Vale Cultura, se fortaleçam com recursos provenientes do Fundo Setorial do Pré-Sal, como afirma Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura e atual coordenador da área da Cultura na campanha.

Para um povo que é tido muitas vezes como “sem memória”, nada mais saudável que aprender a olhar pelo retrovisor.

São as conferidas no retrovisor que podem nos salvar de guinadas desastrosas.